Estou trancado no meu quarto. Fiz uma barricada diante da porta para me proteger. Já não tenho comida e a água vai acabar em poucas horas, mas não posso sair antes da manhã chegar. Estou fraco, mas ainda lembro do momento exato em que a agonia começou.
Era quinta-feira e fui despertado pelo som de coisas caindo. Em seguida ouvi um grito agudo, semelhante ao lamento de um animal ferido. Depois disso, foi o pesadelo. Para não perder a sanidade, estou registrando os fatos em um diário, na sequência em que eles acontecem. Se vencer a próxima madrugada, acredito que conseguirei sobreviver.
Quatro dias atrás: o barulho de louças quebradas e tecidos rasgados fica cada vez mais forte. Ouço passos inquietos pela casa inteira. O telefone da sala toca sem parar, mas não me atrevo a ir até lá para atender. Estou amedrontado. De repente, a porta da frente bate com força e o silêncio envolve tudo. Depois de muitos minutos de espera para me certificar de que estou realmente só, saio do quarto com cuidado. O cenário que encontro é o da desolação. Objetos pelo chão, fotos queimadas, uma pizza mezzo portuguesa-mezzo repolho pendurada no lustre de cristal que comprei em um antiquário caríssimo. Não me preocupo em arrumar coisa alguma. Saio sem banho, o mais rápido que consigo. Sei que precisarei estar de volta antes que a noite caia. Se não for assim, temo pelo que possa me acontecer.
Três dias atrás: quase fui apanhado ontem, enquanto me esgueirava para entrar em casa. Corri para o quarto e tranquei a porta. Trouxe comigo provisões para os próximos dias. Não muitas, porque o peso das compras poderia me atrapalhar, caso eu tivesse que fugir. Improviso um banheiro perto do guarda-roupa com a areia higiênica do gato Rudi. Depois fico no escuro e não faço qualquer barulho. Tem jogo do Grêmio valendo a liderança do Brasileirão, mas não ligo a tevê. Tudo o que eu posso fazer agora é esperar. Eu sou o fantasma do homem que fui.
Dois dias atrás: ouço garras arranhando a porta. Desde que cheguei do trabalho, permaneço em posição fetal embaixo da cama. Não posso correr o risco de ser visto pelo buraco da fechadura. Há pouco escutei outras vozes estridentes e alteradas vindas da sala de jantar. Daqui onde estou, percebo apenas palavras e expressões desconexas:“maridos”, “machistas”, “porcalhões”, “capar todos eles”. Tenho fome. As batatas fritas de pacote e os amendoins de aperitivo não conseguem me saciar. Por que eu não coloquei um frigobar no quarto, como tantos mais prevenidos já fizeram? Meu corpo pede proteína. Vou deixar uma jujuba açucarada ao meu lado para atrair algum inseto. Qualquer inseto.Um dia atrásEstou chegando ao meu limite. Meus colegas de trabalho percebem o meu abatimento, mas eu não conto nada. Quanto menos gente souber do que estou vivendo, melhor. Hoje saí tarde. Senti que havia uma emboscada à minha espera e fiquei imóvel dentro do guarda-roupa por duas horas. A areia higiênica está totalmente usada. Comecei a fazer minhas necessidades no lençol, que dobrei sobre a areia para diminuir o mau-cheiro do quarto. Urino sentado para evitar qualquer ruído. Restam apenas restos de salgadinhos de bacon e uma garrafa de água de 300 ml. Hoje quase pedi um pastel de carne com meio ovo cozido, mas e se o entregador fosse flagrado na porta? Não posso colocar outras pessoas em perigo. Passo a maior parte do tempo dormindo com um pano amarrado na boca, para prevenir que algum ronco escape. E que eu seja percebido.
Hoje: uivos de agonia atravessam a parede. Não os meus, que esses eu fui obrigado a engolir junto com as últimas gotas de água saloba. Se eu resistir por mais algumas horas, terei assegurado mais um mês de vida. Há pouco pensei ter ouvido os primeiros pássaros da manhã, mas ainda eram os morcegos em seus guinchos derradeiros. Estou suado, cansado e faminto. Meu consolo é o calendário amarfanhado que seguro fortemente nas mãos. O calendário com o dia 12, hoje, assinalado em vermelho. O dia em que a minha mulher finalmente vai sair da TPM.
por Claudia Tajes

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